sábado, 30 de julho de 2011

domingo, 5 de junho de 2011

Tempos modernos

Alguém do escritório falou que bacanal é feminino, se fala a bacanal. 

Bacanal: substantivo feminino e ocorre somente quando a orgia é feita por três ou mais participantes.


— Não pode ser com dois?
— Não. Isto é sexo ou amor, dependendo do contexto.
— E com um?
— ...
A pergunta me fez lembrar do meu primeiro espermograma. A família cobrava mais um filho inutilmente até que minha esposa colocou-me na parede, e sem alternativa, já que argumentos lógicos e financeiros não funcionaram, procurei um urologista, que após uma preleção preencheu a guia para o referido exame.
O doutor, um conceituado especialista, nos deixou bem à vontade num assunto delicado para tratar com o casal. Foi tão tranqüilo que sai de lá pensando que poderia comprar um sêmen congelado no supermercado. Do freezer para o micro-ondas, como se se pudesse ter um filho descongelado. Tempos modernos.
Mas eu não queria ter um filho assim, de um cara que coloca um
espermatozóide no mundo e nem se interessa saber que fim deu. Que herança genética, hem? Não! Não! Queria ter um filho meu, sangue do meu sangue, feito com meu próprio sêmen. Está ralo?, tem pouco espermatozóide?, é só me masturbar em um potinho destes de iogurteira de anúncio televisivo, esperar 38 horas e pronto, os bichinhos talhariam o leite. Igual iogurte. Como!, não é possível?
Não sei o que foi pior, fazer a reserva, digo marcar o exame, confirmar presença, ou receber o kit de coleta das mãos da enfermeira. É engraçado que moleque não tem muita noção das coisas, quando criança tínhamos a famosa corrida da mulher do sapo. A saporra.
Éramos uns quinze moleques. Marcávamos o evento na laje da construção abandonada na rua debaixo. Se os mais sensíveis acham um absurdo a competição de cuspe em distância é por que não viram nossa competição de arremesso de esperma em distância. A famosa saporra. Nossa competição rompeu as fronteiras e em pouco tempo competíamos além rua.
No laboratório de análises clínicas, uma enfermeira de meia-idade me acompanhou até sala de coleta, entregou-me um pote de plástico translúcido, de uns 250 ml, um chumaço de algodão, uma bisnaga de um líquido com cheiro de cloro e folhas de papel-toalha. Lembro-me de seus olhos severos acima dos óculos de leitura e do meu rosto quente enquanto explicava-me como esterilizar a glande, para tomar muito cuidado no primeiro jato, que não era para desperdiçar nenhuma gota sequer, que tudo que saísse deveria ir direto para o pote e que quando terminasse ligasse urgente - É só discar 9.
 
Na sala com banheiro conjugado, um sofá de couro preto, uma mesa de canto com um telefone, uma televisão dependurada num suporte de parede e embaixo um revisteiro, na tv passava um filme pornográfico e no revisteiro transbordavam revistas diversas para gostos diversos.
Sentei-me, folheei algumas revistas, assisti um pouco do filme, e nada, a inspiração não vinha. Deitei-me no sofá, e a dupla sofá-tv depositou-me sobre os braços de Morpheus, creio ter dormido uns quinze minutos. Levantei assustado, inspirado, e ato contínuo fantasiei, quase não deu tempo da esterilização.
Enchi o balde.
Peguei o telefone, pedi um filé à cubana e uma coca-cola.

sábado, 16 de abril de 2011

Quantas velas ainda me faltam?


Não mando flores por quê?


Respondo sempre que não pode ser assim, por meio de um pedido:


 Por que você não me dá flores. Só no começo do namoro. Depois?, nem flor comprada no semáforo.
Quero surpreender você, meu amor.


Mas a flor nunca vai e quando estou de mal humor digo o que acho: que é dinheiro jogado fora, que com esta grana posso comprar coisas mais úteis, batedeira, liquidificador, ferro de passar roupa. Não preciso nem falar qual é a resposta que levo na cara.


Em minhas reminiscência da infância o odor das flores representa a morte, só defunto ganha flores, em coroas e guirlandas jamais em bouquêts.


Penso que flores assim como as velas são marcos em nossas vidas. As velas estão nos aniversários para graduar a distância entre o inicio e o fim, velas que nos leva até Hades,  para o barqueiro ao invés de moedas flores. As flores enfeitam os começos e os finais. Se ganha flores quando se nasce e quando se morre.


Gostaria de não ter certidão de nascimento, não fazer festa de aniversário, não trilhar  uma fita métrica contando as velas que me faltam. Você pode imaginar? Fulano morreu com setenta anos. Ah! Sicrano morreu jovem tinha cinqüenta e três. Beltrano tem noventa anos, não resta muito tempo para ele. Ora quero partir quando chegar a hora, sem ver o final. Quero ter ignotos anos e que me faltem ignotos anos.



Criou-se até uma semiologia cromatológica para as rosas: amarela sucesso, branca pureza, vermelha paixão, champagne admiração, laranja encanto, rosa carinho.



As rosas brancas enfeitam o casamento. O divórcio deveria ser marcado por metafóricas rosas amarelas.


No começo de namoro se dá flores, geralmente rosas vermelhas, mostrando o quanto se está apaixonado, marcando o início. E elas, como um animal, marcam o território nos dando perfume.


— Você não me ama mais.

Refuto. O amor se mede pelos gestos, coisas imateriais, um inesperado beijo entre as gôndolas do supermercado, uma pegada na cintura como se dissesse — É minha — num puro gesto de possessão, um Hershey's comprado na loja de conveniência.


No fundo não te dou flores porque tenho medo de que seja o fim.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Uma questão de saúde pública


E no boteco da esquina, reprisavam os melhores momentos no debate entre os presidenciáveis, e enquanto isto em uma clínica no extremo leste da maior cidade do hemisfério sul:
— A senhora está ouvindo?
— Não doutô, tira este troço logo. Tá me dando uma gastura.
— Ótimo. Vou imprimir para senhora levar de recordação.
— ...
— Não dá pra ser de ladinho doutô?
— Não. Preciso de espaço para trabalhar.
— Esta posição é muito incomoda. Vai doê doutô?
— Fica calma, coloquei bastante lubrificante com xilocaina no tubo. Vai entrar fácil. A senhora tomou o remédio ontem?
— Claro! Isto começou a me chupa doutô. Tô com uma leseira e... desculpe doutô... tive uma caganeira danada esses dias.
— São alguns dos sintomas. Logo, logo a senhora ficaria igual aqueles crianças lubriguentas.
— Deus que me livre doutô, tira logo.
— O remédio que a senhora tomou faz o bicho desgarrar da mucosa, assim consigo sugá-lo com este tubo  mostrou o tubo  É um remédio moderno ele paralisa o sistema nervoso do bicho e ele desgarra.
— É muito grosso doutô, vai doer.
— Relaxa a musculatura senão dificulta a entrada. E não é tão grosso assim. O tubo vai até o local onde o bicho está instalado e suga ele. Sai inteiro. O melhor é que não precisa de nenhum corte. Se for uma infestação tira tudo de uma vez.
— Deus que me livre doutô. Não sei como peguei isto. Deve ter sido naquela lagoa em Ribeirão Pires. Ainda bem que ninguém me filmou ali, naquele lugar chinfrim. Vá que a pessoa coloca no iutubi.... ia ser igual aquela outra.
— É a primeira vez?
— Vixe! Esta é a terceira vez que pego isto doutô. Parece que tenho um para-raio.
— Por que a senhora não toma medidas profiláticas.
— Pro... pro o que doutô?
— Tomar medidas para evitar a infestação.
— Ih, doutô! remédio me faz mal, e as outras coisa eu acabo perdendo o gosto.
— Ai! Ai! Ai! Puta-que-pariu que tá doendo doutô. Tira logo.



— Está saindo agora. É grande este hem?... E roxo... Pronto... tá aqui, parece que ia ter os olhos azuis. (dá uma risada histérica)

O médico coloca a ponta do tubo na lixeira e expele o feto e toda a sujeira.
— Doutô. o senhor é um santo.
— ...

Graças a Deus, depois da descriminalização podemos ter este tipo de atendimento pelo SUS.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Borboleta púrpura



Tornei-me viciado em trekking por causa de uma borboleta púrpura. 

O trekking, ou caminhada, nasceu com os primeiro hominídeos que se colocaram em pé e da áfrica partiram para o mundo. O termo "trekken" significa migrar no idioma africâner usado pelos colonizadores europeus que habitavam o sul do continente africano.  


No Brasil, os primeiros trekkers foram os bandeirantes que com dinheiro da coroa portuguesa cruzavam o país em busca das riquezas minerais e de indios para o trabalho escravo nas plantações de cana-de-açucar. E assim arrombaram as fronteiras que nos limitavam.

Um pensamento não tem crédito se não nascer ao ar livre, que não tenha a participação síncera dos músculos, assim pensava Nietzsche, e concordo em genêro, número e grau com ele. O cara era um verdadeiro andarilho, caminhava até oito horas por dia, caminhando e rabiscando, com seu caderninho fazia a colheita das idéias que borbotavam.

Minha história começou quando lecionava ciências em uma escola na Aclimação, convocaram-me para um trabalho de interdiscipliaridade, uma tal de exploração da serra do mar,  e partiríamos pelas trilhas existentes em Paranapiacaba-SP. O incrível foi saber que a diretora teve esta ideia após a leitura do livro Diário de um mago, de Paulo Coelho, se encantou com o misticismo do caminho de Santiago de Compostela.  Neste país, muitas idéias nobres surgem de motivos banais.

Programou-se um mês de preparo, o professor de educação física se encarregou do fôlego da turma e apresentou o trekking como um esporte radical. O de geografia apresentou o relevo e o extrativismo que está levando a flora e a fauna da região ao curto caminho da extinção. A de história discorreu sobre as bandeiras e as viagens dos Pedros do reinado. A de matemática se encarregou das coordenadas cartesianas, o uso da bússola, cartas de navegação. Apresentei um pouco da biodiversidade da mata atlântica.
  

Nunca esqueci o dia em que pisei na lama feita pela chuva da noite, e do cheiro de mato que alvejava a mente. Preparei-me muito, uma Camel bag nas costas, um piollet na mão, uma bota preparada nos pés. Vesti calça jeans e camiseta branca. Após a preleção feita por um especialista em trekking nos separamos em grupos, de quatro a seis integrantes. Cada grupo, liderado por um professor, se embrenhou na mata por uma trilha diferente.


Meu grupo tinha três alunos, duas meninas e um menino. Malú, logo nos primeiros passos teve uma entorse (assim acreditei) e o Thiago se fez de muleta para devolve-la ao ponto de partida, e não voltou mais. Como fomos os último, todos estavam muito a nossa frente, continuamos somente os dois, eu e Ástrid, uma morena de quinze anos, cor de terra,  bermuda jeans e top verde oliva.

O terreno era muito acidentado e os mosquitos, vorazes vampiros voadores, como alguém podia gostar daquilo, repetia para mim mesmo em pensamento.

Após poucos passos adentramos a floresta. Floresta de jequitibás, cedros, canelas, ipês, guapuruvus, quaresmeiras. De samambáias roçando as pernas e de lindas bromélias onde repousam os olhares. Das atrevidas plantas menores: palmeiras, samambaias e quaresmeiras, furtivas ocupantes dos espaços criados pelas árvores grossas,  velhas árvores que  pulverizavam a distância entre eu e Ástrid. No chão da trilha uma terra escura podia ser vista entre as folhagens e sementes que insistia em retormar aquilo que os pés roubavam. O céu manchado de roxo, amarelo, rosa dos prepotentes ipês. E entre um arfar e outro do peito vi a borboleta púrpura.



O suor das costas de Ástrid escureceu a barra do top e escorreu sobre a borboleta tatuada pouco acima  do cóccix, e o púrpura voluptuosamente me ensurdeceu, como se eu submergisse numa água fria e verde.



E a borboleta seguiu seu vôo  sinuoso e levou-me até uma capoeira, e nos amamos entre as folhas putrefatas e a terra preta e úmida  da beirada de um olho d’agua.



Muitos anos se passaram e em cada caminhada continuo seguindo a borboleta púrpura.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Gesto brega?





Puxeta! Aquela puxada no cós da calça era como uma fisgada no calo.

Repartindo a bunda em duas. Pior que pata de camelo. Que aliás, acho até bonito, sensual. Gosto duvidoso? O problema é meu. Fica parecendo capô de fusca. Sempre gostei de fusca, será que é por isso?


Bom, definitivamente puxeta broxa qualquer um.


Ela insistia, toda vez que levantava da poltrona do ônibus, colocava a bolsa no assento e, ai!, puxava a maldita calça para cima. Aquilo era demais.


Eu sempre me sentava no último banco e podia vê-la, meio assim, de  viés.


Lembro da vez que levantei primeiro, e ela, sonolenta, depositou o corpo sobre a poltrona da frente, de relance pude ver sua calcinha, oras não vi toda, somente a parte de cima, cintura Saint-Tropez tem este problema, mostra mais do que devia. E era beje. Tremi. Será que era casada? Infeliz do marido. Uma mulher com aquele gesto... nãa! nãa! nãa!, pior que puxar a calcinha enfiada no rego, aliás, é muito excitante, e quando é acompanhada daquele barulhinho de chicote estalado no ar, oh!, que arrepio. Mas puxeta? não, não dá!


Ela passou a marcar meu tempo, sempre que levantava era o sinal que meu ponto havia chegado. Aguardava e... ai!, pior até que chupar a espuminha do fundo do copo. Aquele biquinho, e aquele barulhinho, oh! que excitante. Mas puxeta não, meu Deus não!
Um dia ela foi de vestido, tubinho preto, o cabelo arrumado e a marquinha da calcinha desaparendo em meio as bandas, ela virou e olhou para mim. Corei. Não de vergonha. Mas como assim, cadê a... puxeta.


Hoje estamos fazendo dez anos de casado, as carolas dizem que são bodas de estanho, oras disto não entendo, escuto a voz do promoter chamando o casal para receber os aplausos, espero ela levantar, dá apenas dois passos, e oh!, puxou o cós da calça...