Não mando flores por quê?
Respondo sempre que não pode ser assim, por meio de um pedido:
— Por que você não me dá flores. Só no começo do namoro. Depois?, nem flor comprada no semáforo.
— Quero surpreender você, meu amor.
Mas a flor nunca vai e quando estou de mal humor digo o que acho: que é dinheiro jogado fora, que com esta grana posso comprar coisas mais úteis, batedeira, liquidificador, ferro de passar roupa. Não preciso nem falar qual é a resposta que levo na cara.
Em minhas reminiscência da infância o odor das flores representa a morte, só defunto ganha flores, em coroas e guirlandas jamais em bouquêts.
Penso que flores assim como as velas são marcos em nossas vidas. As velas estão nos aniversários para graduar a distância entre o inicio e o fim, velas que nos leva até Hades, para o barqueiro ao invés de moedas flores. As flores enfeitam os começos e os finais. Se ganha flores quando se nasce e quando se morre.
Gostaria de não ter certidão de nascimento, não fazer festa de aniversário, não trilhar uma fita métrica contando as velas que me faltam. Você pode imaginar? Fulano morreu com setenta anos. Ah! Sicrano morreu jovem tinha cinqüenta e três. Beltrano tem noventa anos, não resta muito tempo para ele. Ora quero partir quando chegar a hora, sem ver o final. Quero ter ignotos anos e que me faltem ignotos anos.
Criou-se até uma semiologia cromatológica para as rosas: amarela sucesso, branca pureza, vermelha paixão, champagne admiração, laranja encanto, rosa carinho.
As rosas brancas enfeitam o casamento. O divórcio deveria ser marcado por metafóricas rosas amarelas.
No começo de namoro se dá flores, geralmente rosas vermelhas, mostrando o quanto se está apaixonado, marcando o início. E elas, como um animal, marcam o território nos dando perfume.
— Você não me ama mais.
Refuto. O amor se mede pelos gestos, coisas imateriais, um inesperado beijo entre as gôndolas do supermercado, uma pegada na cintura como se dissesse — É minha — num puro gesto de possessão, um Hershey's comprado na loja de conveniência.
No fundo não te dou flores porque tenho medo de que seja o fim.
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