Bacanal: substantivo feminino e ocorre somente quando a orgia é feita por três ou mais participantes.
— Não pode ser com dois?
— Não. Isto é sexo ou amor, dependendo do contexto.
— E com um?
— ...
A pergunta me fez lembrar do meu primeiro espermograma. A família cobrava mais um filho inutilmente até que minha esposa colocou-me na parede, e sem alternativa, já que argumentos lógicos e financeiros não funcionaram, procurei um urologista, que após uma preleção preencheu a guia para o referido exame.
O doutor, um conceituado especialista, nos deixou bem à vontade num assunto delicado para tratar com o casal. Foi tão tranqüilo que sai de lá pensando que poderia comprar um sêmen congelado no supermercado. Do freezer para o micro-ondas, como se se pudesse ter um filho descongelado. Tempos modernos.
Mas eu não queria ter um filho assim, de um cara que coloca um
espermatozóide no mundo e nem se interessa saber que fim deu. Que herança genética, hem? Não! Não! Queria ter um filho meu, sangue do meu sangue, feito com meu próprio sêmen. Está ralo?, tem pouco espermatozóide?, é só me masturbar em um potinho destes de iogurteira de anúncio televisivo, esperar 38 horas e pronto, os bichinhos talhariam o leite. Igual iogurte. Como!, não é possível?
Não sei o que foi pior, fazer a reserva, digo marcar o exame, confirmar presença, ou receber o kit de coleta das mãos da enfermeira. É engraçado que moleque não tem muita noção das coisas, quando criança tínhamos a famosa corrida da mulher do sapo. A saporra.
Éramos uns quinze moleques. Marcávamos o evento na laje da construção abandonada na rua debaixo. Se os mais sensíveis acham um absurdo a competição de cuspe em distância é por que não viram nossa competição de arremesso de esperma em distância. A famosa saporra. Nossa competição rompeu as fronteiras e em pouco tempo competíamos além rua.
No laboratório de análises clínicas, uma enfermeira de meia-idade me acompanhou até sala de coleta, entregou-me um pote de plástico translúcido, de uns 250 ml, um chumaço de algodão, uma bisnaga de um líquido com cheiro de cloro e folhas de papel-toalha. Lembro-me de seus olhos severos acima dos óculos de leitura e do meu rosto quente enquanto explicava-me como esterilizar a glande, para tomar muito cuidado no primeiro jato, que não era para desperdiçar nenhuma gota sequer, que tudo que saísse deveria ir direto para o pote e que quando terminasse ligasse urgente - É só discar 9.
Na sala com banheiro conjugado, um sofá de couro preto, uma mesa de canto com um telefone, uma televisão dependurada num suporte de parede e embaixo um revisteiro, na tv passava um filme pornográfico e no revisteiro transbordavam revistas diversas para gostos diversos.
Sentei-me, folheei algumas revistas, assisti um pouco do filme, e nada, a inspiração não vinha. Deitei-me no sofá, e a dupla sofá-tv depositou-me sobre os braços de Morpheus, creio ter dormido uns quinze minutos. Levantei assustado, inspirado, e ato contínuo fantasiei, quase não deu tempo da esterilização.
Enchi o balde.
Enchi o balde.
Peguei o telefone, pedi um filé à cubana e uma coca-cola.
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